• Diego Camilo

A Batalha de Monte Castello

Atualizado: 19 de mai.

Em 25 de novembro de 1944, tropas americanas e brasileiras investiram o primeiro de vários ataques contra os alemães entrincheirados em Monte Castello, uma formação rochosa de mais de 900 metros de altura, situada a pouco mais de 60 quilômetros a sudoeste da cidade de Bolonha, Itália, no alto vale do Reno. A batalha durou cerca de três meses, a posição trocou de mãos, e pesadas baixas foram incorridas em ambos os lados. Foi somente em fevereiro de 1945 que Monte Castello foi finalmente tomado pelos brasileiros durante a Operação Encore. Essa campanha no norte da Itália marcou a primeira grande ação da FEB, a Força Expedicionária Brasileira.


As forças aliadas no centro-sul da Itália, sob comando do General Mark Clark, militar que atuou ativamente na II Guerra Mundial e na Guerra da Coreia, tinham libertado cerca de dois terços do país, restando apenas o norte, fortemente industrializado, o último pedaço de terra sob controle do nazifascismo naquele país, com o número estimado em quase um milhão de soldados alemães e italianos dispostos ao sacrifício para salvar o já decadente regime fascista.


Conforme os aliados retomavam territórios pela Itália, os alemães e italianos simpáticos à Mussolini iniciaram a construção da chamada linha gótica, uma extensa série de linhas defensivas com quase 300 quilômetros, construída com trabalho escravo de prisioneiros de guerra com o intuito de barrar o avanço dos aliados. Contra essas defesas, os aliados mandaram o sétimo exército britânico, formado também por indianos e italianos contrários à Mussolini, e o 5º exército americano onde estava inserida a primeira divisão de infantaria da FEB. Os primeiros brasileiros começaram a chegar à região em setembro de 1944, tendo sido destacados para atuar em locais onde a situação se via mais calma com o objetivo de fazer com que se adequassem e ganhassem experiência de combate. Em novembro daquele ano, com um contingente praticamente todo completo, foram destacados para outra área, uma das mais complicadas da linha gótica, O Monte Castello. O principal objetivo do 5º exército americano era tomar Bolonha e cidades importantes próximas, como Milão e Turim, até o Natal de 1944, mas, para chegar lá, precisavam passar primeiro pelo Monte Castello.


Os alemães da 232ª divisão de infantaria, sob o comando do tenente-general Eccard von Gablenz, destacado militar que havia atuado em Stalingrado, eram homens com experiência de combate, veteranos convalescentes feridos da frente russa, outros já haviam atuado na Polônia e norte da África. Os soldados alemães estavam muito bem entrincheirados em todos os montes naquela região, em posições consideradas privilegiadas, pois se encontravam nas partes altas dos montes, de onde tinham ótima visão do terreno, além de linhas de tiro desimpedidas para todos os lados. Isso fez com que, inicialmente, fosse extremamente difícil para as tropas aliadas avançarem em direção a Bolonha.

Soldados da FEB
Soldados da FEB

O primeiro ataque em Monte Castello foi feito pelo 3º batalhão do sexto regimento de infantaria da FEB, em conjunto com a força tarefa 45 dos Estados Unidos, e, apesar de um excelente início que resultou na conquista do importante Monte Bolvedere, vizinho ao Monte Castello, os alemães contra-atacaram em força, ocasião na qual conseguiram recuperar todas as posições e causando grandes baixas entre os brasileiros e norte-americanos. Nos dias seguintes, os brasileiros e americanos fizeram outras tentativas de reconquista daquelas posições, no entanto, os ataques foram muito mal coordenados e com poucos soldados. Aliás, a falta de contingente para enfrentar as numerosas tropas alemãs foi um problema desde o início. O clima na região também não ajudava, com muita chuva e céu encoberto, impedindo, assim, apoio aéreo ao avanço dos soldados.


No dia 12 de dezembro de 1944, após o fracasso dos primeiros assaltos, chegou uma nova ordem de ataque contra os montes Belvedere e Dela Torracia. Cabia, agora, aos brasileiros vencer os setores mais combativos de toda a frente dos Apeninos, no entanto, era sabido que as forças brasileiras que ali estavam eram formadas por homens com pouca experiência de guerra, considerados inexperientes para enfrentar uma luta dessa magnitude, especialmente em terreno montanhoso. Sobre isso, o veterano Newton Lascaléia disse em depoimento: “As únicas montanhas que eu tinha visto, de longe, no Brasil, foram o Pico do Jaraguá, em São Paulo, e o Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro. De repente, me vi lá dentro da cordilheira Apenina no meio daquela vastidão de elevações enormes, enfrentando o começo de um inverno rigoroso. No nosso treinamento nunca se falou em montanha”. Assim, dadas as circunstâncias, o treinamento dos brasileiros se daria na prática, ou seja, em combate.

Soldados brasileiros em combate
Soldados brasileiros em combate

Apesar das reclamações do general Mascarenhas de Moraes, o comandante da força expedicionária brasileira, o quinto exército americano insistiu para que fossem empregados apenas alguns batalhões e não a divisão completa. A falta de apoio aéreo devido ao tempo ruim e o consequente pouco apoio de artilharia levou a que os brasileiros mais uma vez sofressem baixas pelos alemães, cada vez mais bem entrincheirados nos cumes da região. Além disso, o soldado brasileiro carregava, em média, 25 quilos de equipamentos, tendo que se deslocar morro acima, procurando abrigo atrás das rochas, uma vez que a vegetação havia sido destruída pelos bombardeios. No caminho mortal em direção ao cume do monte, os brasileiros tinham ainda que se livrar das minas que, dependendo do tamanho, poderiam arrancar um membro ou mesmo acabar com um homem por inteiro. Havia ainda o terror dos bombardeios e das temíveis “lurdinhas”, as metralhadoras alemãs, capazes de cortar uma pessoa ao meio com uma rajada violenta de projéteis. Ao final da subida infernal, os que conseguiram se aproximar das fortificações e casamatas guarnecidos pelos alemães encontravam uma linha mortal de metralhadoras, que também recebeu um apelido dos soldados: o “corredor da morte”, criado para impedir qualquer ataque frontal. Do alto do morro, via-se toda a movimentação abaixo, tornando impossível o fator surpresa.


O tempo mostrou uma piora e se tornou um fator de dificuldade durante o restante de todo o mês de dezembro, de janeiro e boa parte do mês de fevereiro de 1945, com chuvas constantes que transformaram as estradas já esburacadas pelos bombardeios em lamaçais e a cobertura aérea, tão necessária para apoiar uma investida morro acima, era inviável, além do forte frio que, em dado momento, chegou a 20 graus negativos, como conta o ex-tenente José Gonçalves: “O forte vento dos Apeninos trazia consigo a neve que se desprendia do solo, açoitando os rostos dos homens, a ponto de esfolar a pele e tamborilando os capacetes de aço como chuva de granizo sobre a capota de um carro. O frio era rigoroso a ponto de tornar insensíveis as mãos dos soldados após um curto tempo de vigilância num foxhole (toca de raposa, em português)”.


Ao mau tempo, a vigilância dos alemães do alto dos morros, de todo seu aparato e brutal violência se somava um terror comum nos campos de batalha naquele período: o chamado “pé de trincheira”, nome dado pelos soldados à ocorrência de gangrena nos pés, causada por umidade nos coturnos e que eventualmente levava a amputação dos membros inferiores.



Patrulha da FEB Inverno 1944

Nas três tentativas do ano anterior, os brasileiros haviam sofrido centenas de baixas, o que servira para abalar o moral da tropa e novamente a FEB tinha para si a responsabilidade de tomar o temido Monte Castello. A quarta tentativa não poderia falhar de forma alguma. Segundo o falecido jornalista Joel Silveira, que acompanhou os combates juntamente as tropas brasileiras, “o general Mascarenhas de Moraes, comandante das forças brasileiras na Europa, resolveu desacatar as orientações do comando norte-americano e empregou todas as unidades que tinha a sua disposição para o ataque”.


Uma nova operação de ataque ao Monte Castello só foi autorizada no dia 19 de fevereiro, período em que já ocorria e degelo, a chamada Operação Encore (retomada, em português). Era esperado que agora fosse alcançada a cidade de Bolonha. Nessa operação os brasileiros subiriam em direção ao Monte Castello apoiados pela 10ª divisão de montanha dos Estados Unidos que tinha a missão de tomar os montes Belvedere e Dela Torracia e assim proteger o flanco mais vulnerável do setor. O ataque começou no dia 21 de fevereiro de 1945, logo pela manhã com os alemães demonstrando mais uma vez brutal eficiência.


A força principal brasileira era composta pelo batalhão Uzêda que seguiu pela direita, o batalhão Franklin, pelo centro, e o batalhão Syzeno Sarmento, esperando nas posições privilegiadas que haviam alcançado durante a noite para se juntar aos outros dois batalhões.

Pontos de Combate
Pontos de Combate

Apesar de todas as dificuldades impostas pelo tempo, pelo terreno, a inferioridade numérica e a falta de apoio aéreo e de artilharia em investidas anteriores, a FEB e o Brasil foram capazes de realizar algo impensável: em novo ataque, as tropas brasileiras mostraram ser muito precisas e eficazes, atingindo com precisão mortal as principais posições alemãs espalhadas a volta do monte Castello. A artilharia, sob o comando do general Cordeiro de Farias, alcançou enorme êxito nesse ataque, e foi graças a essa coordenação da infantaria, da artilharia e dos ataques aéreos, que, no meio da tarde, o batalhão Uzêda chegou ao cume do monte, marcando nossa presença na II Guerra Mundial.


Tropas brasileiras após conquista de monte Castello
Tropas brasileiras após conquista de monte Castello

O Monte Castello já estava em mãos brasileiras, momento no qual os americanos da décima divisão de montanha enviaram uma mensagem pedindo ajuda, pedido esse que foi prontamente atendido, com forças brasileiras auxiliando ativamente e nas conquistas dos montes Belvedere e Dela Torracia. Desde o primeiro ataque em novembro de 1944, os brasileiros da FEB sofreram cerca de mil baixas em Monte Castello, entre mortos e feridos. Foi a primeira grande e importante batalha travada pelos brasileiros na II Guerra Mundial, o que lhes garantiu a experiência necessária para as batalhas que ainda estavam por vir. No total, naquela guerra, dos 25.700 combatentes brasileiros, 454 morreram em ação; cerca de 2 mil morreram semanas ou meses depois em decorrência de ferimentos e mais de 12 mil foram feridos – alguns deles mutilados com gravidade.


Os brasileiros capturaram em combate mais de 20 mil soldados inimigos quando a 148ª divisão alemã decidiu se render à FEB – a primeiríssima vez em toda a campanha da Itália que uma divisão inteira alemã foi capturada em combate pelos aliados, vitória lembrada até hoje naquela região na Itália. A ação brasileira na Itália foi tão importante que até hoje, 78 anos depois em 2022, aldeias e cidades inteiras homenageiam os nossos bravos soldados que lutaram para libertar aquele povo da opressão e da tirania do nazifascismo.


Cerimônia na Itália celebra 76 anos da vitória brasileira em Monte Castello
Cerimônia na Itália celebra 76 anos da vitória brasileira em Monte Castello


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